Chamada para Submissões – Dossiê "Sociedade e Cultura na Antiguidade (VIII AEC - V EC)"

2026-04-20

A História Cultural, especialmente a parte dela que lida com contatos culturais, se torna mais precisa e evidente a partir das últimas décadas do século XX, e caracteriza-se pela particular riqueza de abrigar em seu seio diferentes possibilidades de tratamento documental e âmbitos temáticos, como bem notou José D'Assunção Barros. Poder-se-ia hoje evocar uma delimitação já moderna de História Cultural elaborada por Georges Duby. Para o historiador francês, este campo historiográfico estudaria, dentro de um contexto social, os “mecanismos de produção dos objetos culturais” (aqui entendidos como quaisquer objetos culturais, e não apenas as obras-primas oficialmente reconhecidas). Dessa forma, a História Cultural se caracterizaria pelo seu método, mas também pelo seu foco: a produção de significados, práticas, representações e símbolos; e pela sua linguagem: narrativa descritiva e pouco quantitativa.

Foi a aproximação entre a História e a Antropologia que, a partir dos anos 1970, fundamentou o surgimento daquilo que Peter Burke chama de Nova História Cultural. Nesse contexto, se desenvolvem os estudos sobre identidade, o debate entre micro e macro história, além da atenção para a relação entre cultura regional e local em contraste com grandes estruturas culturais, em razão dos avanços da globalização. Para a Antiguidade, como afirma Norberto Guarinello, essa nova perspectiva histórica tornou-se possível graças à explosão de dados arqueológicos que se tornaram disponíveis aos historiadores e lhes permitiram observar mudanças nas relações socioculturais para além das grandes narrativas proporcionadas pela documentação escrita da Antiguidade. Os novos estudos perpassam temas que vão desde a alimentação, vestuário e habitação até formas de identificação cultural e posição social, as relações de gênero e construções do feminino e masculino, a organização das cidades, dos edifícios e suas funções.

Quando falamos em pesquisa no campo da História Antiga, versamos inevitavelmente sobre o conceito de Antiguidade e as bases fundantes do fazer histórico. A princípio, visto de uma forma bastante tendenciosa, como testemunho de um mundo fascinante em oposição à obscuridade medieval, o “antigo” adquiriu características de investigação científica no século XIX, influenciado pelas teorias evolucionistas oriundas dos estímulos darwinianos, sendo empregado pelos estudiosos para validar a ideia da Grécia como o berço do Ocidente (Guarinello, 2013, p. 18-23). Ultrapassando a premissa da superioridade europeia diante dos povos orientais, bem como do fator econômico em relação às demais esferas da vida, a História presenciou uma mudança profunda com as inovações trazidas pelo giro linguístico na década de 1970, responsável por ampliar os objetos de estudos e aportes teórico-metodológicos historiográficos.

Como afirmamos, passou-se a considerar a cultura, o cotidiano, a identidade, a mulher, o negro, o homossexual enquanto temas de análise, ressaltando-se focos identitários e étnicos, bem como grupos que foram marginalizados pela sociedade e pela própria ciência histórica, porque propositalmente esquecidos e silenciados. Se tomarmos o exemplo dos estudos de gênero como indicativo do crescimento da História Cultural no Brasil, veremos que esse campo tem demonstrado um sólido crescimento nos mais diversos setores historiográficos, inclusive na História Antiga e nos Estudos Clássicos.

Enquanto conceito, o gênero nasce nas Ciências Sociais em 1970, impulsionado fortemente pelo movimento do Women’s Studies, nos Estados Unidos, e pela psicologia social estudada nas Universidades de Lyon e de Paris – VIII. Ele desenvolveu-se de maneira acelerada nos anos vindouros, em paralelo com a História das Mulheres e as lutas feministas; todavia, foi ganhando contornos cada vez mais expressivos e particulares, culminando em um campo de estudo próprio (Scott, 1992; Perrot, 2007; Mello, 2010). A principal inovação trazida pelo conceito de gênero se refere à separação entre o fator biológico, ou seja, o sexo centrado na genitália, e as caracterizações possíveis de masculino e feminino. Dito de outra forma, o gênero admite que a adjetivação de ser mulher e de ser homem não se conforma ao binarismo sexual presente na espécie humana (macho/fêmea), mas sim à cultura (Mello, 2010, p. 1-3). É importante ressaltar que a política não se encontra apartada da Nova História Cultural. Enquanto categoria de análise, o gênero desvela as relações de poder e os lugares outorgados e interditos a homens e mulheres em dada época e local.

Como não poderia deixar de ser, o estudo das culturas antigas e interações culturais na Antiguidade acompanhou todas essas transformações próprias do campo da História Cultural, e isso fica particularmente evidente nos estudos sobre o processo de romanização das populações nativas das regiões que se tornaram províncias romanas.

Impregnadas de um eurocentrismo que buscava justificar a empreitada colonial das potências europeias, as primeiras visões sobre os contatos culturais entre os romanos e os povos conquistados refletem certamente essas dinâmicas de poder e dominação cultural do século XIX. Theodor Mommsen, considerando que o domínio de um povo civilizado sobre seus vizinhos selvagens era uma lei tão natural quanto a gravidade, argumentava que, por sua superioridade cultural, Roma teve o direito de reduzir à sujeição os reinos gregos do Oriente que se encontravam em decadência e os povos ocidentais em um nível cultural inferior, como os líbios, iberos, celtas e germanos, por meio da instalação de colonos romanos nessas regiões. Para Mommsen, esse era o mesmo direito que se estendia à Inglaterra para sobrepujar a Ásia, a América e a Austrália.

Já David Mattingly, em um artigo intitulado Being Roman, de 2004, ao explorar os aspectos identitários da Britânia romana, não constatou qualquer uniformidade de identidade que poderia ser corretamente concebida nos moldes tradicionais da romanização. Muitos provinciais, inclusive, não se afeiçoavam a Roma, mesmo que suas elites dirigentes eventualmente adotassem os costumes das altas classes romanas. Para o arqueólogo, só é possível compreender esses processos a partir do desejo de se explorar a diversidade, mais do que tentar buscar alguma solução unitária como o modelo tradicional de romanização. Ao revisitar o tema anos depois, em 2011, já abandonando totalmente tal conceito e argumentando em favor do uso das teorias pós-coloniais no estudo da Antiguidade, ele toma as regiões da Britânia e Tripolitânia romanas como casos em que o fenômeno tradicionalmente descrito como romanização pode ser interpretado como práticas variantes regionais que refletem a maneira com a qual essas sociedades se integravam culturalmente ao mundo romano. Explorar o tema pelo prisma das questões identitárias, por meio do que o arqueólogo chama de “identidades discrepantes”, parece ser mais proveitoso do que adotar o ponto de vista da romanização tradicional, centrado na experiência das elites, sem correr o risco de cair em seu extremo oposto.

Alçados por essas considerações e convictos de que não é mais possível pensar separadamente a cultura da sociedade da qual ela emerge, mesmo com todas as suas tensões e contradições, pretendemos, junto à Revista Faces de História, congregar trabalhos discentes dos mais variados que versem sobre distintos aspectos culturais e sociais da Antiguidade, considerando o arco temporal de VIII AEC a V EC. Buscamos com isso contribuir para a divulgação e consolidação desses estudos sobre a Antiguidade no Brasil, dando vazão ao que tem sido produzido em nível discente.

 

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