Dos mantimentos às bateias mais ricas que há nas Minas

distinção do gosto na urbe setecentista, Minas Gerais

Autores

Palavras-chave:

Fronteira, Economia minerária, Mantimento, Cozinha, Quitanda

Resumo

O estudo buscou investigar as práticas de alimentação dos moradores do território minerário, a partir dos condicionantes sociais, culturais e econômicos. Observamos que a agricultura de subsistência (roças), já associada aos descobertos de ouro (e de diamantes) nas fronteiras, foi reconfigurada na economia colonial-atlântica de abastecimento das povoações urbanas. Além da crescente produção agropastoril, houve uma significativa diversificação dos gêneros comercializados. Contudo, o quadro básico nutricional dos moradores livres pobres e dos cativos pouco mudou ao longo do século XVIII. Mesmo assim, não foi desprezível, em uma história mobilizada pelo imaginário e pelos desejos, a disposição dos moradores pobres, ou dos trabalhadores africanos e afrodescendentes, para lograr uma variedade do gosto, que se apresentava nos comestíveis, açucarados ou não, das quitandas, das vendas / cozinhas clandestinas e das comemorações festivas.

Biografia do Autor

Francisco Eduardo de Andrade, Universidade Estadual Paulista UNESP

Francisco Eduardo de Andrade é Professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em Mariana, MG, Brasil. Pós-Doutor em História pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) de Paris / França. Doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre Em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Graduado em História pela UFOP.

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Publicado

30-06-2019

Como Citar

Andrade, F. E. (2019). Dos mantimentos às bateias mais ricas que há nas Minas: distinção do gosto na urbe setecentista, Minas Gerais. Patrimônio E Memória, 15(1), 93–113. Recuperado de https://portalojs.assis.unesp.br/index.php/pem/article/view/3235